15 Sep 2013

Festas do Mar 2013: Tiago Bettencourt, Expensive Soul e Xutos e Pontapés


Xutos e Pontapés, o inevitável nome para o inevitável fim das Festas do Mar 2013. Foram dez dias de concertos, que, nas últimas noites, tiveram ainda Tiago Bettencourt e Expensive Soul.

Muito especial
Tiago Bettencourt é um veterano. Prova-o o acústico que acaba de lançar em celebração dos dez anos de carreira. Prova-o também a força com que agarrou o público de Cascais, no seu jeito calmo e intimista, com canções que são poemas musicados e autênticas baladas de peito aberto.

'Só Nós Dois', 'Parece que o Destino nos Quebrou' e 'Largar o que Há em Vão' são canções destas. E foram as primeiras a soar na Baía, abrindo um alinhamento onde não faltaram os êxitos comerciais, como 'Canção Simples', 'O Jogo', 'Laços'. Lá para o final, viria 'Carta'.

Não só as músicas mas também o local fizeram deste um concerto especial para Tiago Bettencourt, como o próprio músico fez questão de salientar por ter vivido em Cascais. Igualmente especial foi a participação de Inês Castel-Branco em 'Tens Que Largar A Mão' e 'Se Cuidas de Mim'. Amiga de Tiago Bettencourt, a actriz ajudou a protagonizar alguns dos momentos mais bonitos das Festas do Mar, deste ano.

Mas este não é apenas o Tiago Bettencourt que nos habitou aos temas tristes e melancólicos. Do piano para a guitarra, o músico dá um registo mais folk ao concerto, descontraído e divertido, e apresenta mesmo versões muito próprias de 'Pó de Arroz' e 'Canção de Engate'. A abrir 'Só Mais uma Volta' ainda vai buscar Lou Reed e um dos refrões mais conhecidos de sempre, "take a walk on the wild side".

'Temporal' e 'Eu Esperei' fecham o concerto que, apesar de longo, passou bastante depressa. E soube bem voltar a ouvir Tiago Bettencourt, que vai muito para além da faceta mainstream que as rádios imprimem às suas músicas.

Bounce, bounce!
Lembrei-me da primeira vez que vi Expensive Soul ao vivo. Foi no Pavilhão dos Lombos, em Carcavelos, e já passaram quase dez anos. A dupla que subiu, este ano, ao palco das Festas do Mar é sem dúvida muito diferente.

Músicos mais maduros, New Max e Demo conquistaram um lugar no panorama português. Entre os discos que lançam enquanto dupla, vão sendo chamados por outros músicos para ajudar na produção dos seus trabalhos. Aprenderam a dar espectáculos e espectáculo, suportados por uma fama que ganharam recentemente e que esgotou completamente a Baía. Suportados também por uma incansável Jaguar Band, que enche de soul - e boa música - as suas rimas.

E aprenderam a fazer-se valer do estatuto de vedetas a que parecem ter ascendido, dando-se ao luxo de interromper músicas quando o público não acompanha na medida desejada. Direito legítimo, atenção, mas não perante uma das maiores enchentes que as Festas do Mar viram este ano.

Ninguém levou a mal e as pessoas até começaram a responder (ainda) mais quando, a meio caminho do fim, se pede à '1ª fila' que salte, "bounce, bounce!". Antes e depois, saíram os maiores sucessos da banda de Leça da Palmeira: '13 Mulheres', 'O Amor é Mágico', 'Falas Disso', 'Brilho' (de que já nem nos lembrávamos) e, a fechar, 'Eu Não Sei'. Espaço ainda para 'Machadinha', tema gravado para a Missão Sorriso de 2010. Um concerto eficiente, que se manteve dentro dos limites.

'Para sempre'
Português que se preze não perde uma oportunidade de ver Xutos e Pontapés ao vivo. A banda que já leva 34 anos continua a mover multidões. E é por isso que, da primeira fila, se continuam a estender braços sucessivos com lenços vermelhos nos pulsos. Braços de pais, mães e filhos. Até de avós. A banda atravessa gerações mas continua a despertar a mesma adesão. A diferença é que, agora, as promessas "Xutos Sempre" se escrevem em tablets e não apenas em cartazes. (Outro sinal dos tempos: 'Privacidade', música nova, tem mão do DJ Cruzfader.)

Do palco, a mesma energia e uma felicidade palpável de quem está ao lado de grandes amigos. Zé Pedro, Kalú, Tim, João Cabeleira e Gui reflectiram isso mesmo nas mais de duas horas de concerto que levaram ao sítio que tão bem conhecem, a Baía de Cascais. Em repetidos momentos, o grupo recuou, alinhando junto à bateria de Kalú e aí desenrolou hinos que já são demasiados para enumerar.

E, mesmo assim, a banda continua a produzir novo material, que teve destaque nesta noite. Fala-se, por exemplo, de 'Cordas & Correntes', 'Independência' e 'Da Nação'. Mantém-se o tom interventivo ou não fossem estes os Xutos e Pontapés e, assim, não poderia faltar o desafio de Kalú (já espreitaram o seu projecto a solo?): "Coelhinho, se eu fosse como tu, pegava na Troika e enfiava-a no..."

Esta é uma das melhores fases da vida dos Xutos - renovada, viva, feliz. Prova-o a recusa de Zé Pedro em deixar o palco, ao fim do segundo encore. O público também não admite ir embora sem ouvir 'Maria' e, perante o novo regresso da banda, volta a prometer-lhe fidelidade eterna. 'Para Sempre'. (A música que ficou a faltar...)